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Trabalho de história FALANTES DA LINGUA KIKONGO(Trabalho Escolar)

INTRODUÇÃO
Numa pequena pesquisa, recebemos as seguintes informações que o kikongo é uma língua africana falada pelo povo bacongo, nas províncias de Cabinda, do Uíge e do Zaire, no norte de Angola; e na região do baixo Congo, na República Democrática do Congo e nas regiões limítrofes da República do Congo. A língua quicongo tem o estatuto de língua nacional em Angola. Conta com diversos dialetos. Era a língua falada no antigo Reino do Congo.
É uma língua tonal. Era falada por muitos dos que foram levados como escravos para as Américas.
Por essa razão, formas crioulas suas são adotadas na linguagem ritual de religiões afro-americanas. Também influenciou na formação da língua gullah nos Estados Unidos e do palanqueiro na Colômbia. Existem atualmente aproximadamente 7 000 000 de falantes nativos e 2 000 000 de pessoas que a usam como segunda língua. Serviu de base para a formação do kituba.


O CONTACTO ENTRE LINGUAS
Através dos antropónimos, segundo Carreira e Quintino, (1969: 28), é possível tomar conhecimento de muitos aspectos interessantes da sua vida de um povo: tendências, vícios, defeitos, credos, superstições, um mundo de problemas ligados à maneira de ser e de viver desse mesmo povo, numa visão sociocultural.
O contacto entre as línguas nacionais e a Língua Portuguesa criou nos povos de Angola um conjunto de novos procedimentos, que fizeram com que, hoje, não se perceba a origem de alguns antropónimos, isto é, se são de origem de uma língua nacional ou se provêm da Língua Portuguesa; se um determinado significado tem origem nesta ou naquela língua; se determinada grafia pertence à língua nacional ou ao português; se uma dada pronúncia é ou não correcta; se é ou não uma pronúncia de outra língua.
Estes problemas não só prejudicam as línguas nacionais, mas também dificultam o processo de organização do Acordo ortográfico da Língua Portuguesa, que o país pretende implementar, contribuindo também para a identidade cultural de um povo. Em virtude do carácter social e da necessidade de valorização do património cultural, urge a necessidade de efectuar uma análise e recolha indispensável de dados relacionados com a antroponímia nacional, dados que se referem ao passado histórico e cultural do homem angolano.
A reconstrução de uma sociedade passa por vários aspectos e modelos sólidos para a sua identidade nacional e internacional.
 A escolha do tema visa a análise dos antropónimos, unidades lexicais, que constituem um acervo de unidades lexicais da língua, partilhado pela comunidade de locutores.
Com este estudo pretendemos estabelecer uma ortografia harmoniosa dos antropónimos de acordo com a Língua de origem e a realidade contextual em que são utilizados; identificaram-se métodos que ajudam a elaboração de programas para o estudo da Antroponímia; propuseram-se algumas estratégias que podem ajudar os pais e os Serviços dos Registos a atribuírem nomes, obedecendo a uma ortografia harmoniosa.
E, finalmente, demonstrou-se a importância do investimento harmonioso da escrita dos antropónimos e os riscos que a não harmonização pode causar.
Lembramos que a complexidade, a extensão do assunto escolhido e a dimensão geográfica da região Kongo, que se estende pelo Norte de Angola e pelos dois Congos (Democrático e Brazzaville), não nos permitiu desenvolver um trabalho mais completo sobre o tema, tendo em conta a dimensão do referido território.
 Neste sentido, acabamos por apresentar apenas um subsídio para o estudo dos antropónimos da língua Kikongo, na Província do Uíge. Esta investigação é um estudo descritivo. Os dados foram recolhidos em diferentes áreas da Província, nomeadamente na Conservatória dos Registos do Uíge, nas Direcções Provinciais, Administrações, Cartórios religiosos, entidades tradicionais, pessoas singulares, etc.
GEOLINGUÍSTICA DA PROVÍNCIA DO UÍGE
 Antes da chegada dos portugueses à foz do rio Zaire em 1482, o Reino Kongo encontrava-se organizado administrativamente, com uma entidade cívico-cultural africana. Administrativamente, o Reino do Kongo estava dividido em seis províncias: Mpemba, Soyo: Mbamba, Mbata, Nsundi, Mpanzu.
 A actual Província do Uíge fazia parte da organização administrativa do Nsundi (cf. Kanda, 2005). Angola é um mosaico de vários reinos, mas o único a que a História Universal faz referência é o Reino do Kongo.
Zau (2009) refere-se aos Bakongo como um povo que tem tido uma preocupação no cumprimento da sua cultura ancestral, o que o identifica como um povo genuinamente bantu. Tudo isto deveu-se ao espírito de organização administrativa que os nossos antepassados possuíam.
Não se sabe a data exacta da fundação da cidade do Uíge. Sabe-se, porém, que foi enviado o alferes Tomás do Bembe ao Candombe Velho, ao local onde se encontrava o Soba Bunzu, a quem entregou a mensagem enviada pelo Comandante, cujo teor referia a autonomia da cidade de Carmona, actual cidade do Uíge.
A Província do Uíge é uma das dezoito Províncias de Angola, parcela do território que fazia parte do Reino do Congo.
O primeiro contacto do povo do Congo com os europeus (portugueses) aconteceu a 23 de Abril de 1482 quando Diogo Cão chegou à foz do rio Nzadi (Zaire) que baptizou com o nome de “rio de S. Jorge.
 Os habitantes deste reino chamavam-se Bakongo, nome que prevalece até à data actual os Bakongo pertencem à grande família bantu que habita a cintura da Savana do Sub-Sahara; hoje, encontram-se espalhados em vários pontos de África.
Diogo Cão estabeleceu contactos com o governador da província de Soyo (Mani Soyo) e soube da existência do rei Nzinga-a-Nkuvu que morava em Mbanza Kongo, mandou emissários ao rei e regressou a Portugal, levando consigo 4 indígenas do Congo entre eles o Kasuta (baptizado em 1483 com o nome de D. João de Sousa) (cf. Bauer, 1994:51).
Mais tarde, grandes migrações vieram instalar-se na bacia hidrográfica do Rio Zaire e dos seus afluentes. Por terem encontrado boas condições de vida, esta corrente migratória instalou-se nesta zona: é o chamado grande grupo ou família dos Bakongo (cf. Mudiambo, 2014:50).
Os Bakongo de Angola identificam-se pelas suas características culturais típicas, a sua facilidade de adaptação, as suas experiências de arte e de técnica, a agricultura e o comércio; por isso, o Mukongo (singular de Bakongo) é reconhecido em qualquer parte do país. Mudiambo (2014:50) afirma que «Numa viagem por todo o país, encontramos representantes deste povo, os Bakongo, em todas as províncias do país.
 Cada grupo etnolinguístico confina-se, geralmente, de acordo com a sua origem, a uma determinada “região geográfica” que J. Quipungo (1987:53) define como uma parcela de terra circunscrita pelas pessoas que nela habitam e se autorrealizam. Sua repercussão dentro do país deve-se, especialmente, à personalidade deste povo que dá a conhecer o que a região possui em termos de qualidade de terreno, a riqueza da sua fauna e flora, riquezas minerais e todas as suas características climáticas e pluviais.
Os estudos de vários sociolinguistas, historiadores, antropólogos e outros interessados na matéria atribuem várias classificações sobre a localização dos Bakongo.
Segundo autores como Fernandes (2002) e Zau (2009), entre outros, podemos encontrar esse grupo em Cabinda até à margem esquerda do rio Kongo, numa região entre o mar e o rio Cuanza. Os Bakongo contam hoje com um grupo com cerca de 480.000 habitantes, ocupando a terceira posição entre os maiores grupos etnolinguísticos do país. Este grupo subdivide-se em Basikongo, Bandongo, Pombo, Nsoso, Suku, Yaka, Zombo, Hungu, Bayombe e Woyo.
A sua actividade principal é a agricultura com uma tendência actual para a mecanização.
 O Uíge é uma das dezoito (18) Províncias da República de Angola, situada a Norte do país. A referida Província faz parte das maiores Províncias de Angola com superfície territorial de 64.022 km2, estendendo-se entre os 550 e 820 de latitude sul e os meridianos 1450 e 1710 de longitude Este de Greenwich.
 A Província é limitada ao norte e Nordeste pela República Democrática do Congo, a Oeste com a província do Zaire, a sudoeste com o Bengo, a Sul com o Cuanza Norte; a Sudeste com Malange que, segundo os resultados preliminares do Censo 2014, indicam que a 16 de Maio de 2014 residiam, na Província do Uíge, 1.426.354 pessoas, sendo 698.958 do sexo masculino e 727.398 do sexo feminino (cf. INE. 2016).







ORIGEM E VARIAÇÃO GRÁFICA DO TOPÓNIMO UÍGE
O topónimo “Carmona” designou a actual Província do Uíge e a sua capital que tem, hoje, o nome de Uíge. Ao longo do tempo, a sua grafia tem suscitado motivos de investigação. Os católicos escrevem com J “Uíje” (cf. Kanda, 2005, Mudiambo, 2014 e Mourisca, 2002).
Administrativamente, o topónimo é escrito com G “Uíge”. Manuel Quivuna, investigador em Sociolinguística e Lexicologia sugere uma outra forma ortográfica para escrever o topónimo Uíge. Segundo o autor, a grafia correcta do topónimo “Uíge” deveria ser com W e Z “Wizi” segundo a língua 7 “Kikongo”.
 O autor justifica que o grafema /g/ não fazem parte do sistema grafemático do Kikongo, pois o alfabeto desta língua não tem /g/. O PDPU1 de 2013 a 2014, traçado pelo governo Provincial do Uíge, esclarece que o nome da Província deriva da localidade do Uíge, onde foi fundado um posto militar pelos portugueses, em 1917, que viria a ser a sede da circunscrição de Bembe a partir de 1923 e posteriormente sede do concelho do mesmo nome. Há ainda explicações para o nome: “wizidi” que, na língua Kikongo, significa “chegada”, em alusão aos primeiros portugueses que se fixaram na região, até ao rio Uíge.
 O PDPU (2012:6) afirma que «A grafia de Uíge aparece frequentemente como Uíje. Torna-se necessário tomar uma decisão oficial como aconteceu em Malange, onde, por orientação do Governo da Província se aboliu oficialmente a grafia com um /j/.
 O mesmo deve ser feito para Negage (Negaje), Dange (Danje) e outros casos». Uma importante data de referência na Província do Uíge foi 1934. Nesta data, foi criada a vila que mais tarde recebe a designação do nome do português Marechal Carmona.
 Assim, o actual Uíge ficou conhecido como Vila do Marechal Carmona. Ao longo deste período, a vila foi considerada a capital da província do Congo, criada em 4 de 07 de 1946. Anos depois, em 1956, é elevada à categoria de cidade.
 Depois dos acontecimentos de 1961, o distrito do Congo foi dividido em dois: Zaire e Uíge, tornando-se a cidade do Uíge a capital da mesma Província. A independência fez com que o distrito passasse a designar-se Província, mantendo os mesmos limites. (cf. PDPU: 2012).
A data histórica indica, por um lado, a centralização do poder do regime colonial português, carregado de todo o tipo de vicissitudes e por outro lado, tem sido festejada, porque marca algo histórico na vida desta parcela do território nacional.
 O povo da cidade do Uíge começou a realizar as festividades desta cidade no tempo do Governador ou Comissário Senhor António José Aníbal Rocha, em 1987 (cf. Mudiambo: 2014). Neste trabalho, usaremos a grafia oficial, isto é UÍGE. Esperamos que o projecto sobre o acordo ortográfico harmonize também este topónimo
A LÍNGUA COMO VEÍCULO DA CULTURA DE UM POVO
 A língua é o suporte de valores que lhe são intrínsecos e condiciona o modo de pensar de quem a fala. Saussure (cf. 1978) reconheceu que «nenhuma sociedade conhece nem conheceu jamais a língua de outro modo que não fosse como um produto herdado de gerações anteriores e que cumpre receber como tal».
 O autor lembra-nos ainda que «os factos linguísticos não provocam a crítica, no sentido de que cada povo geralmente está satisfeito com a língua que recebeu.
 A história revela que em Angola, país multilingue, o governo garante e sempre garantiu a unidade nacional, na escolha do português como Língua da comunicação de Cabinda ao Cunene e do Mar ao Leste. O governo angolano considera que a unidade nacional se estende de Norte a Sul e do Mar a Este.
A escolha de uma língua local, entre as várias existentes, poderia contribuir para uma outra guerra num país que se encontrava numa imergência de uma identidade nacional,o português, sendo a língua de escolaridade, tornou-se língua oficial, com o intuito de garantir a comunicação não só nacional, mas também para facilitar a comunicação internacional. Para os Bakongo, a identidade cultural é o resultado de vários factores tais como: históricos, sociais, culturais, linguísticos e geográficos.
No caso da cultura, segundo Paul (cf. 1966), apud Mudiambo (2014), o reconhecimento da cultura passa pelas condições da evolução e reconhecimento da língua. O autor reconhece ainda que a língua representa o resultado da cultura humana na qual se desenvolvem todos os produtos da cultura e, portanto, constitui um objecto da observação histórica. As línguas têm uma natureza social. São sistemas complexos de signos partilhados por um conjunto de locutores com pequenas variantes, poderá, no entanto, existir uma variante dominante (cf. Gomes, 2006).
Segundo Castro (cf. 2011:7), “uma língua não é um objecto estático e fechado, como as descrições linguísticas sincrónicas, por convivência prática, muitas vezes deixam supor; antes parece um corpo vivo que se acha em mutação constante, nem sempre avançando de forma linear para um objectivo determinado: também pode reverter sobre os seus passos ou pode oscilar entre avanços em várias direcções, naquilo a que se chamaria variação”.
Assim, a língua como todos os outros elementos que alicerçam a cultura, não é uma invenção ou criação de um indivíduo isoladamente: ela é obra de todo um grupo social. Na mesma linha, Mondin, apud Imbamba (2010:43),
A língua, não é só um instrumento de unificação, caracterização e distinção dum grupo social, mas é, também, a mola que faz impulsionar o seu desenvolvimento cultural. Um dos espelhos a partir dos quais o mundo externo pode ver e avaliar a grandeza, a riqueza ou a pobreza da cultura dum povo, pois a língua é o símbolo principal e fundamental de qualquer comunidade humana portanto, a língua desempenha um papel social e, concomitantemente, é o elemento veiculador da cultura de um povo. Assim, a conservação e valorização da cultura linguística Bakongo, através do uso da Língua Kikongo é um dos aspectos que tem despertado um grande interesse pelos investigadores na referida região.
ETNOLIGUÍSTICA DE ANGOLA
Angola é um país multilingue e com uma grande diversidade étnica. No entanto, o contacto duradouro com o colonizador português não levou ao esquecimento das línguas de Angola, apesar do superstrato registado em certos casos (cf. Sousa, F. (2012). O termo etnolinguístico apresenta duas noções: etnia e língua. A etnia, do grego ethnos: povo, nação, é um grupo de indivíduos que pertencem à mesma cultura (mesma língua, mesmos costumes) e que se reconhecem como tal.
 A língua como “sistema de signos”, segundo Saussure (cf.1978), é de natureza social e partilhada por uma comunidade que admite as suas convenções e as suas modificações que permitem a sua evolução ao longo do tempo.
 Benveniste (2005) sublinha que a língua é um espelho da sociedade que reflecte a estrutura social nas suas particularidades e variações. Para Hegel, apud Chicuna, 11 (2014:32) «a língua é uma mediação e não só entre o homem e os outros homens, mas ainda entre o homem e o mundo».
 A língua Kikongo é uma das línguas bantu mais falada pelos habitantes da província do Uíge, fazendo parte da identidade nacional; o Ministério da Cultura chama esta região de “área sociocultural Kongo”.
 A Lei sobre o Estatuto das Línguas Nacionais (2004: 6-8) estabelece “as línguas usadas histórica e secularmente pelos povos que habitam o território nacional, independentemente do número de falantes enquanto veículo de transmissão das comunidades linguísticas angolanas, cabendo ao estado promover o seu desenvolvimento e difusão”.
 Para Macêdo et al (2005) os povos de origem Bantu constituem a esmagadora maioria da população angolana. Sabe-se também, que a população autóctone, segundo a classificação de Redinha (1962:11-20), subdivide-se nos seguintes grupos etnolinguísticos: 1) povos bantu: Kikongo, Kimbundu, Lunda-Kioko, Umbundo, Ganguela, Nhaneka-Humbe, Ambó, Herero e Xindonga; b) povos não-Bantu: Koisan ou Hontetote-Bochimane e Vátua. Nesta distribuição, as regiões sedentárias das etnias continuam imutáveis e apresentam características próprias. Cada grupo étnico possui uma identidade cultural distinta, idioma próprio e as respectivas variações linguísticas que permitem estabelecer relações de pertença entre si e expressar laços de fraternidade, culturais, comerciais e outros, nutrindo o respeito mútuo e o princípio de integridade territorial.


LÍNGUAS NACIONAIS EM CONTACTO COM O PORTUGUÊS
A lei do uso da Língua Portuguesa em todos os sectores e actividades laborais, a força de conservação e a maioria absoluta da população não alfabetizada e residente no interior, na qual o colonizador tinha pouco contacto, fez com que a população comunicasse nas suas línguas maternas.
É de reconhecer que os grupos étnicos continuam a preservar as principais 12 particularidades etnolinguísticas das suas respectivas comunidades que revelam uma força de conservação e de manutenção. Há autores que afirmam que a desvalorização das Línguas Nacionais, durante o período colonial, manifestou-se de várias formas: proibições do seu uso nos locais comerciais, serviços públicos; não podiam ser faladas, mas, mesmo assim não foram esquecidas.
Segundo Quivuna (2014), a incapacidade que o colonizador teve em expandir o português em todo o território nacional, antes da independência, fez com que o português não se enraizasse na sua totalidade em todas as parcelas do território.
A história revela que as línguas de Angola, conhecidas como Línguas Nacionais, durante o período colonial estavam confinadas ao seu âmbito regional, o que contribuiu para a sua conservação. Assim, segundo Chicuna (2014: 40-42), a tendência da administração colonial em propor o protótipo da cultura europeia aos africanos, levou a que fossem ignoradas as línguas nacionais, começando pela sua exclusão do sistema de ensino e dos meios de comunicação oficiais do país, relegando esse papel exclusivamente à missão cristianizadora. Portanto, o facto das línguas de Angola não serem implementadas no sistema do ensino e aprendizagem não implicaria necessariamente a sua desvalorização.
A implementação recente pelo Governo de Angola da Lei de Bases do Sistema de Educação (LBSE) - Lei nº 13/01 de 31 de dezembro de 2001 afirma que a falta de implementação da Língua Portuguesa em todo o território nacional angolano pelos portugueses não se deve à falta da vontade dos colonizadores em expandir a sua cultura linguística.
 No processo de Reforma Educativa de 2001 recomendava-se uma investigação que viabilizasse a implementação das línguas nacionais no sistema educativo, como forma de neutralizar o funcionamento glotofágico da Língua Portuguesa e, desta forma, reclamar um papel mais preponderante das línguas nacionais, no contexto sociopolítico e económico do país.




LÍNGUA KIKONGO
 Em meadas do século XIII, os Bakongo ocupavam o vale do rio e formaram o reino do Kongo. A parcela territorial do Uíge pertencia a esta etnia Kongo. De uma forma geral, entendemos como línguas naturais as línguas ou sistemas de signos, cujo surgimento não depende de um determinado indivíduo, mas servem de meio natural de comunicação linguística numa sociedade.
Segundo Reis (2006: 42), «as línguas naturais têm maioritariamente uma base genealógica de existência, ou seja, parte de famílias de línguas concretas. Essa particularidade, a de serem naturais, permite que o signo linguístico seja arbitrário e a língua – um sistema aberto».
 Os Bakongo, cuja língua é o Kikongo, viveram principalmente no Nordeste de Angola. Hoje, encontram-se nas províncias de Cabinda, Uíge, Zaire e algumas parcelas de Cuanza Norte e Bengo.
 Este conjunto de indivíduos que viveram e continuam a viver em comunidade, não teriam o carácter de comunidade sem que existisse a língua Kikongo. O Kikongo é a língua da província do Uíge, desde tempos remotos, a língua falada pelos habitantes do reino do Kongo. E os habitantes desta etnia bantu são designados Bakongo ou Esikongo. A Província do Uíge faz parte deste território.
Assim, o Kikongo é a língua da Província do Uíge, constituindo um património cultural muito importante. Quivuna (2014:29) afirma que “o primeiro património cultural que uma sociedade deve exibir, é sem dúvida, a sua língua; pois, ela veicula a cultura de um país ou de uma comunidade; é através da língua que as experiências de vida das comunidades vão sendo transmitidas de geração em geração, ao mesmo tempo que esta mesma língua vai servindo de suporte de comunicação entre os membros das mesmas comunidades.
 Cada sociedade, por mais subdesenvolvida que seja, é detentora de uma língua, mesmo que não transcenda fronteiras”. 15 Na mesma perspectiva, Imbamba (2010: 43) sublinha que a língua “é o primeiro elemento que faz sair o indivíduo singular de si mesmo e põe-o em comunicação com os outros. O agrupamento social nasce, antes de mais e sobretudo, com base numa língua, pois falar é “falar a”, é “falar com”, assim, a língua é a condição sine qua non para a constituição de qualquer grupo social, o qual é sempre portador duma determinada cultura”.
A língua Kikongo, desde as épocas dos reinos até hoje, continua a ser, “um sistema”(conceito Saussure) e deve ser estudada como tal. Rocher (1989:162) afirma que «língua é um sistema que só conhece a sua ordem própria e que as suas partes podem e devem ser consideradas na sua solidariedade sincrónica».
 Na época da chegada dos portugueses, no fim do século XV, o reino do Kongo era um reino forte e unificado, com a capital Mbanza Kongo. O reino ficou bastante enfraquecido pelos ataques portugueses no século XVII, acabando por desaparecer na totalidade.
No entanto, a sua língua manteve-se, apesar da destruição dos reis e dos reinos e das várias emigrações a que estes habitantes foram sujeitos. Esta língua continua viva, até hoje, na Província do Uíge. A língua como diz Imbamba, (2010: 43) «permanece sempre a primeira chave de leitura e a revelação por excelência de qualquer cultura, por isso, enquanto alicerce e veiculadora de uma determinada cultura é sempre a história e a hereditariedade de um povo». Graças ao esforço dos próprios habitantes desta região, sem esquecer os outros valores, que o próprio Mukongo2 lhe imprime, a língua Kikongo é uma das identidades insubstituíveis nesta etnia Kong
O KIKONGO EM CONTACTO COM OUTRAS LÍNGUAS NACIONAIS
A ONU (1996) afirma que a comunidade linguística identifica-se como povo e desenvolve uma língua comum, como meio de comunicação natural e de coesão cultural entre os seus membros.
 Numa situação de diglossia, a língua de prestígio é sempre a mais prestigiada na consciência linguística da sociedade, do ponto de vista étnico, o Kikongo é a língua bantu dos Bakongo na Província do Uíge que, por vários motivos, tiveram que abandonar umas zonas para se fixarem noutras.
 Wheeler e Pélissier, apud Mingas (2000), afiram que apesar da diversidade étnica e da variação de tipos físicos presentes nos grupos angolanos, estes encontram-se essencialmente interligados quer em termos culturais, quer raciais, através das línguas geneticamente aparentadas.
A maior interacção da Língua Kikongo com outros grupos etnolinguísticos angolanos ocorreu durante a era colonial em que muita gente do centro e do sul de Angola foi transportada (compulsivamente) para esta província e durante a guerra que assolou o país. É neste período que se dá a grande mistura de toda a população angolana que se dirigia para outras zonas, dando lugar às interferências das várias línguas angolanas.
A situação da existência de línguas, em paralelo, e utilizadas em situações funcionais diferentes é denominada diglossia que pressupõe uma avaliação consciente pelos falantes das suas línguas, observando-se uma hierarquia consoante a necessidade funcional, como ocorre com o Lingala3 , o Kimbundu4 e outras (cf. Mubiambo, (2014). A língua Kikongo, apesar de o ter sofrido vários contactos, continua a ser uma língua de identidade cultural. Deste contacto tem resultado um enriquecimento do seu léxico. As línguas de Angola são produtos de práticas sociais de grupos que precisam ter a sua existência garantida num mundo democrático e intercultural (cf. Severo, C. et al , 2014).


ALFABETO DA LÍNGUA KIKONGO
Aquando da investigação das línguas bantu e das línguas indo-europeias, Nogueira (1952:20-21) questiona se as línguas bantu e as Línguas indo-europeias não viriam de um mesmo tronco, ramo ou raiz ? O autor sugere que, para se responder à pergunta, é necessário que se realize um estudo comparativo das raízes, da estrutura mórfica dos vocábulos e da comparação dos valores sémicos desses vocábulos e da estrutura mórfica e sintáctica das frases das línguas das duas grandes famílias; no caso de existirem paralelismos de correspondências fonéticas, mórficas, semânticas e sintácticas poderemos dizer que temos o caminho aberto para uma solução positiva do problema.
Mas por enquanto ainda não há estudos que confirmem estas hipóteses. Diogo António na sua obra sobre “Provérbios em Kikongo” (2001) refere que oficialmente ainda não existe um alfabeto de Língua Kikongo. No entanto, os padres capuchinhos na sua primeira gramática do Kikongo apontam 18 letras para o alfabeto Kikongo a saber:
A, B, E, F, G, I, K, M, N, O, P, S, T, U, V, W, Y, Z. O uso das letras W e o Y devem-se às influências vindas das obras da RDC
República Democrática do Congo que serviram de consulta para a constituição da primeira gramática do Kikongo escrita pelos padres. Para Tavares (1915:8), o alfabeto em Língua Kikongo deve-se ao sistema gráfico latino, imposto pelos portugueses; neste sistema, a ortografia foi constituída, baseando-se nos grafemas portugueses.
Mas na verdade esta ortografia não existe nas línguas bantu, salvo em casos muito restritos». Para Mounin (cf. 1997), muitos estudos demonstram que nenhuma ortografia traduz com exactidão a fonética da língua e que as alterações ortográficas nunca acompanham as alterações fonéticas das línguas. Este facto justifica que é necessário conhecer o sistema fonológico da referida língua. Porém, o facto do alfabeto do português servir como modelo para o estudo das línguas nacionais, por factores históricos conhecidos, não impede o estudo das línguas nacionais.


SISTEMA FONOLÓGICO DO KIKONGO
 Independentemente da proveniência histórica do sistema fonológico da língua Kikongo é necessário também conhecer algumas características que muitas vezes são só manifestadas na literatura oral. Segundo Quiala (2013:17), «embora haja a tendência e o esforço para a utilização escrita do Kikongo, a verdade é que, ao ler o texto ou falar, o leitor ou o falante não consegue esconder a sua variante pelo seu sotaque».
 Castro, I. (2011:7) afirma que “uma língua não é um objecto estático e fechado, como as descrições linguísticas sincrónicas, por convivência prática, muitas vezes deixam supor; antes parece um corpo vivo que se acha em mutação constante, nem sempre avançando de forma linear para um objectivo determinado: também pode reverter sobre os seus passos ou pode oscilar entre avanços em várias direcções, naquilo a que se chamaria variação”.
Para Mingas (cf. 2002:56), os primeiros passos da elaboração do alfabeto de línguas nacionais foram dados pelos missionários e alguns comerciantes, a partir das línguas europeias, com base no alfabeto latino, e que «durante a época colonial os missionários utilizaram as línguas locais nas suas escolas e os primeiros textos escritos em línguas locais aparecem ao nível da igreja». Quiala, (2013) na sua obra “Longoka Kikongo” apresenta o alfabeto do Kikongo que resulta do trabalho de investigação feito pelo Instituto de Línguas Nacionais, com a grafia e pronúncia do mesmo


PALAVRAS COM SIGNIFICADO EM KIkONGO
Governo – LUYALU
Constituição – N’KANDA A N’SIKU (mya nsi),
Bandeira – N’DIMBU kya NSI.
Presidente – NTUADISI a NSI, MFUMU a NSI, NTWAZI
Hino Nacional – NKUNGA wa LONGO a NSI
Parlamento – NZO ya KINZONZI
Deputado – MPOVI, N’KWA KINZONZI
Político – MAYALA, N’kwa MBUMBA
Chefe político – MFUMU a MAYALA
Ministro – N’TUMWA a LUYALU
Primeiro-Ministro – N’TUMWA a NTETE wa LUYALU
Ministro de Agricultura – N’TUMWA wa LUYALU Lwa MPATU (KYANA)
Ministro da Juventude – N’TUMWA wa LUYALU Lwa MATOKO
Ministro do Desporto – NTUMWA wa LUYALU Lwa NSAKA:
Ministro das Relações exteriores – N’TUMWA wa LUYALU Lwa MAMBU ma nsi za KINZENZA
Ministro da Energia – N’TUMWA wa LUYALU Lwa NZAZI
Ministro das Minas – N’TUMWA wa LUYALU Lwa MANGUNGU (Mabanga ma Ntalu)
Ministro das Águas – N’TUMWA wa LUYALU Lwa MAZA
Ministro dos Transporte – N’TUMWA wa LUYALU Lwa NDATANI
Ministro da Defesa – N’TUMWA wa LUYALU Lwa MAKESA (mambu ma Kindu)
Ministro do Trabalho – N’TUMWA wa LUYALU Lwa SALU
Ministro da Educação – N’TUMWA wa LUYALU Lwa LULONGOKU
Ministro do Interior – N’TUMWA Wa LUYALU Lwa LUVÚVAMU a NKANGU
Ministro da Justiça – N’TUMWA a LUYALU Lwa NZITISILU
Ministro de Informação – N’TUMWA a LUYALU Lwa NSANGU
Ministro da Comunicação Social – N’TUMWA wa LUYALU Lwa N’SAMU
Ministro da Economia – N’TUMWA wa LUYLU Lwa NGANGU za Swkila NZIMBU
Ministro do Comércio – N’TUMWA wa LUYALU Lwa NKIKITA
Ministro das Finanças – N’TUMWA wa LUYALU Lwa M’FUTILA NZIMBU.
Ministro das Pescas – N´TUMWA wa LUYALU Lwa LOWA (Takula)
Zola: amar
Nzola: amor
Tuzolana: amemo-nos
Kiese: alegria
Tusamba: oremos
Samba: orar
Tutondele: agrademos (obrigado)
Kuntuala: a frente
Mwêne: ver
Luvayika: sair
Matumona: o que vimos
Lufiauluisu: consolação
Matondo: obrigado
Luvuluzu: salvação
Dizaya: confissão
Cão: mbua
Coelho: lumba
Pedro, Pierre: pedra
Pinto: muana nsusu
Fruta: bundu
Sardinha: nzonzi (peixe)























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